Governo Lula amarga segunda derrota no Congresso em uma semana

 

Madeilene Lacsko

Colunista do UOL

Enquanto tripudia sobre Jair Bolsonaro, o governo amarga mais uma derrota no Congresso, no marco do saneamento. Este projeto e o das fake news eram desafios muito mais simples do que está adiante, o arcabouço fiscal e a CPMI dos atos de 8 de janeiro. Se os rumos não forem corrigidos com urgência, Lula periga meter seu governo em sérias dificuldades logo no primeiro ano.

Toda a composição do governo foi feita para atender a interesses partidários e garantir maioria no Congresso. É uma situação nova para o PT, que nunca chegou ao poder numa eleição tão apertada. É preciso agradar muita gente para ter o mínimo de governabilidade.

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Além disso, o cargo de presidente da Câmara foi acumulando poderes durante o governo Bolsonaro, o que torna a instituição mais forte nas negociações com o Executivo.

Os métodos que antes funcionavam agora estão se provando insuficientes. Lula distribuiu ministérios a vários partidos mas não está colhendo os votos deles em plenário. No caso das fake news, nem liberação de emenda foi suficiente para garantir aderência.

Existe aí um outro problema de fundo. Por mais que deputados e partidos queiram benesses do governo, a prioridade é outra, garantir a própria sobrevivência política. As estratégias de comunicação adotadas pelo lulismo no projeto das fake news foram um tiro no pé.

Não foi boa estratégia espalhar fake news, apelar a criancinhas mortas e chamar todos os críticos de apoiadores de nazistas e de pedófilos. Eu cheguei a desconfiar que a estratégia foi elaborada por bolsonaristas infiltrados que queriam fazer Lula passar vergonha. Diversos políticos juraram para mim que isso não ocorreu, portanto acredito.

No dia seguinte da derrota do governo, que tirou o projeto de pauta por não conseguir votos nem liberando emenda, veio o caso do cartão de vacina falsificado. A comunicação de Lula e Janja optou por tripudiar e tirar sarro. Não seria minha opção, mas cada um dá o que tem.

Não durou muito. No mesmo dia o governo sofre uma derrota que não imaginava. Alguns decretos do presidente Lula alteraram o marco do saneamento. A Câmara derrubou ontem vários trechos desses dispositivos.

governo Lula falhou no primeiro teste de articulação com o Congresso Nacional. Agora é necessário ir além do combo adolescente de inventar culpados, demonizar adversários e procurar ajuda de influencer surtado que vive de fazer bullying.

É importantíssimo o Executivo ter a sensibilidade de respeitar a legitimidade do Poder Legislativo. Vivemos um momento delicado, em que acabamos de superar um abalo democrático e o sistema de freios e contrapesos dos Três Poderes foi acionado.

O Judiciário tem um papel muito maior e mais publicizado do que costumava ter, o que já deixa o Legislativo se sentindo acuado. Se o Executivo resolve dobrar a aposta, não pode esperar sair vitorioso.

O projeto das fake news é um tipo de tema que exige coesão social para ser votado. Nem isso temos. Tínhamos um texto que havia sido discutido, embora muito pouco, com a sociedade civil. Ocorre que até esse foi completamente mudado. Quase metade do texto final não passou por uma única audiência pública. Aliás, sequer foi debatido em profundidade com os próprios deputados.

O marco do saneamento é um produto do parlamento, de um debate que durou anos e envolveu diversas mudanças no projeto. Lula resolveu modificar na canetada do Poder Executivo, novamente sem discutir nada. O relator do projeto, deputado Fernando Monteiro, que é sobrinho do ministro da defesa José Múcio Monteiro, disse que os decretos do presidente foram derrubados em respeito ao parlamento.

Entre paquitas de político e luloafetivos é natural dobrar a espinha para qualquer capricho de Lula. Talvez essa entourage bajulatória tenha acostumado mal o presidente. Deputados também têm poder político, não vão se agachar da mesma forma que os aspones e capachos.

 

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